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O “lixo” e o luxo

por | 3 abr, 2020

Por Leandro Bovo da Radar Investimentos

A volatilidade dos mercados financeiros mundiais durante a atual crise do coronavírus segue em níveis astronômicos, alucinantes e, porque não dizer, desumanos

A total falta de visibilidade e convicção sobre qualquer aspecto do futuro próximo deixa todos os envolvidos em negociações financeiras com os nervos à flor da pele e num ambiente assim, na maioria das vezes, as decisões tomadas não são racionais.

Talvez nada exemplifique melhor o ambiente de incerteza do mundo, do que as oscilações no mercado futuro de petróleo. Para ficar apenas no exemplo mais recente, no dia 1/4 o petróleo caiu 8% e, até o meio dia da quinta-feira (2/4), subia próximo de 30%.

No meio desse tiroteio, o mercado futuro de boi também tem oscilado de forma errática, alternando limites de baixa, com limites de alta, com limites de baixa novamente, numa oscilação jamais vista na história.

A precificação da curva futura está totalmente comprometida pela alta volatilidade e baixo volume de negócios e tomar qualquer decisão tomando como base os preços futuros atuais é bastante perigoso

Nas últimas semanas o contrato de maio saiu de R$200,00/@, veio para R$165,00/@, voltou para R$195,00/@, e, no pregão da quinta-feira (2/4), fez mínima de R$172,00/@. Já outubro saiu de R$215,00/@, fez mínima a R$172,00/@, voltou para R$200,00/@, e, no pregão do dia 2/4, fez mínima a R$178,00/@.

Isso tudo sem que o indicador Esalq à vista tenha tido nenhuma oscilação relevante.

Apesar dos preços do físico ainda estarem relativamente estáveis, é de se esperar que a pressão de baixa aumente nas próximas semanas, à medida que os efeitos da diminuição da demanda no mercado interno vão sendo sentidos nas proteínas.

Nesse aspecto teremos mais um dificultador para definição do preço justo do mercado, que é a enorme disparidade no poder de compra das indústrias habilitadas a exportar para China e as de mercado interno.

Vem daí o título do texto, que nas palavras de um executivo do setor, descreve a demanda do mercado interno como “um lixo” e as plantas habilitadas para exportar para a China como “um luxo”.

Com o dólar e o boi nos preços atuais, a exportação para a China deixa uma margem extremamente positiva para os exportadores e a demanda pelo chamado “boi China” com certeza seguirá firme e com bons preços, já os preços do mercado interno tendem a ser mais pressionados.

Outro fator muito interessante que ocorreu nessa semana foi o achatamento do diferencial de preços safra x entressafra, que até a semana passada estava entre R$10,00 e R$12,00/@ e recuou para ao redor de R$5,00/@ atualmente.

É difícil encontrar alguma explicação racional para esse achatamento, já que a oferta disponível para o final da safra já está dada e virá para o mercado com preços mais altos ou mais baixos, porém, a oferta de bois para a entressafra ainda tem que ser “construída” e nos preços atuais é difícil achar alguma operação de confinamento ainda rentável para a entressafra.

Caso a produção da entressafra não seja estimulada via preços mais remuneradores, o mais provável é que a oferta diminua muito e aí, caso o mundo não acabe e a economia tenha uma mínima recuperação no segundo semestre, a falta de oferta cobrará seu custo via aumento de preços.

Resumindo, o ambiente de volatilidade atual deve prosseguir e muitas oportunidades aparecerão em todos os ativos. Cautela, paciência, sangue frio e boa capacidade financeira são os requisitos indispensáveis para aproveitá-las.

***Texto originalmente publicado no informativo pecuário semanal “Boi & Companhia” nesta última quinta-feira (2/abr) da Scot Consultoria***